
"Geir Jenssen" significa muito. Além do nome de batismo deste cidadão norueguês, é também o nome do responsável por um dos mais bem-sucedidos e memoráveis projetos de música ambient de todos os tempos. É a mente por trás de álbuns cheios de significado, como
Autour de La Lune,
Cirque e
Substrata. De quem estamos falando? Do
Biosphere, é claro. Um projeto além da música, o qual nos dá informações espaciais, botânicas e glaciais. Pesquise a respeito dos álbuns para compreender! Trabalhando com seu nome, porém, a questão é bem diferente, mas não por isso menos interessante.
Cho Oyu 8201m: Field Recordings from Tibet é, como supõe o nome, um álbum feito somente à base de "gravações de campo", ou seja, gravações de sons a céu aberto, sejam eles reproduzidos por animais, pessoas, vento, água, objetos e muito mais. Obviamente não se limita a 'tocar' somente o que é gravado, pois - raciocine comigo - se fosse apenas isso, qualquer indivíduo sem um mínimo conhecimento musical o faria e o material soaria entediante. É aí que reside o dom de Jenssen! O dom de manipular, fundir e dar vida aos sons. A abertura é dada por "Zhangmu: Crossing a Landslide Area". Nela, ouvimos percussões, pessoas conversando e um barulho de rio correndo fortemente. Pelo que pude compreender, Geir realizou um passeio pelo Tibet, indo em direção ao topo do monte, este do título do álbum, gravando tudo e depois montando a obra. Pois bem, essa introdução dá a idéia dos primeiros movimentos. Na seqüência, "Tingri: The Last Truck" vem com o som de pessoas caminhando com algo que vibra (parecem sinos, objetos metálicos), juntamente com o último caminhão (na chegada há um efeito de stereo muito legal). É aqui que conferimos já as manipulações de Geir! Repete os sinos, cria atmosferas obscuras e deixa pairando no ar um clima de dark ambient muito atucanante! "Jobo Rabzang", em contrapartida, vem bem relax, lembrando até o trabalho efetuado no álbum
Shenzhou. "Chinese Base Camp: Near a Stone Shelter" e seus sons oceânicos são uma ótima demonstração da tranquilidade que há nesse lugar do planeta! Soa por ora um tanto quanto assustadora, pois o barulho do vento soando sem barreiras que o impeçam de prosseguir dá uma impressão de "deserto". "Palung: A Yak Caravan Is Coming" é uma das mais interessantes, visto que começa como um dia: Devagar, com pássaros cantando, bem amena. Logo surge uma voz deveras estranha! E a explicação está no título. Relembro da minha infância, quando ia ao interior e observava meu avô conduzindo as vacas por meio de gritos como "Oum, oum, oum...". Aqui, o homem conduz os Yaks (espécie de bisão) com um grito bem distinto. "Cho Oyu Base Camp: Morning", também como sugere o nome, apresenta um calmo dia nascendo. Pessoas conversam tranquilamente, pássaros cantam alegremente, animais irreconhecíveis reproduzem sons estranhos e há uma fria atmosfera ao fundo. Propicia-nos belas imagens mentais, caso fecharmos os olhos e deixar que o som nos guie! "Nangpa La: Birds Feeding on Biscuits" é uma das mais interessantes! Geir deve ter montado um esquema interessante: Largou alimentos em um local deserto, com microfones muito próximos. O resultado são sons de pássaros totalmente cristalinos! Percebe-se claramente o bater de asas e de cada som vocal emitido pelas aves. "Camp 1: Himalayan Nightflight" é como uma noite reclusa num campo em meio ao "nada". O ser presente tenta sintonizar rádios, mas nenhuma parece o agradar. O som do vento ecoando entre as montanhas e árvores é assustador! A natureza diz, através disso, que tem vida. "Camp 1.5: Mountain Upon Mountain" é uma continuação, mas desta vez o ouvinte encontrou música numa rádio. Parece-se, na real, com uma caixinha de música. Enfim, isso parece o agradar, pois ali fica sintonizado até a "Camp 2: World Music on the Radio", na qual o vento aumenta bruscamente - provavelmente em plena madrugada - e apreciamos mais música no rádio. Ela, contudo, não permanece por muito tempo, oscilando entre sumir e voltar. "Camp 3: Neighbours on Oxygen" pula diretamente ao momento da escalada! As respirações ofegantes, as conversas curtas e toda a atmosfera criada nos mostram como é escalar uma montanha recheada de neve! Lembrem-se, Geir é alpinista nos momentos de folga. Pelo que consta no encarte, antes de realizar o trabalho, Jenssen teve que assinar vários papéis e enfrentar várias questões burocráticas para realizar a experiência. Não sei bem o porquê, mas nem vem ao caso. É legal conferir o depoimento do próprio acerca de um tipo de medicina utilizado no alto do monte para cuidar das mais diversas enfermidades. Enfim, "Summit: Only Slight Breeze on the Summit at 8201m" completa a jornada. Trovejões, ventos e um clima de tranquilidade recheam a música, passando a mesma sensação de quando atingimos um objetivo tão almejado!
Curiosidade: A música "Birds Fly By Flapping Their Wings", do
Dropsonde, de 2005, contém samples de gravações efetuadas anteriormente em Cho Oyu.
Este álbum é mais uma prova de toda a versatilidade de Geir Jenssen. Como se não bastassem todos os exemplos dados antes sob o nome
Biosphere e todos seus discos distintos e interessantes, aventura-se num campo complicado que é o do "field recording", e consegue se dar bem. Depois dessa, resta só aguardar por mais algum material novo enquanto apreciamos dua vasta discografia.
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